O romance Em Sagres (Europress, Lisboa, 2006), publicado antes de O Livro das Trivialidades, mas posterior a ele, é dos textos mais pessoais que alguma vez escrevi. É nitidamente autobiográfico e uma homenagem à terra onde nasci. Terminei-o em 2004, mas a ideia de o escrever é muito mais antiga que a sua execução. A ação decorre no essencial no verão de 1973, apesar dos saltos temporais que acompanham as figuras, adolescentes na primeira metade da década de setenta, na sua entrada na idade adulta e por aí em diante até aos quarenta e poucos anos. Findo um salto temporal com o intento de atualizar a narração, a história regressa ao verão eterno de 1973. Sagres, no romance, é mais do que uma personificação. É uma personagem, e personagem importantíssima. Esse istmo no sudoeste português e europeu é um lugar mítico, de natureza agreste, cuja beleza os mais pagam em desassossego. Sagres, de alma soberba e insondável, com o vento norte, os seus miasmas, os deuses antigos caídos em esquecimento, tem vida, e mesmo mais vida do que nós. Sopra a nortada, o eterno vento do norte. O leitor terá de ouvir a nortada, descer à Praia da Mareta, caminhar até ao Tonel ou à Baleeira, ou ao farol do cabo de São Vicente.
